Apresentação/Introdução
Ao longo dos anos observamos no município de Suzano, que os casos de violência que foram notificados para a vigilância epidemiológica pelo pronto socorro não recebiam um acompanhamento em seu território, pelas unidades de saúde, dificultando desta forma cuidado em rede, o conhecimento dos indicadores deste agravo, suas ações de prevenção/promoção de saúde. O aumento dos casos de violência doméstica durante a pandemia do COVID-19 evidenciou uma epidemia silenciosa que atinge diretamente crianças e adolescentes, mulheres e idosas, indicando que quanto maior tempo de exposição da pessoa, maior serão os danos a ela acometidos, chegando até ao feminicídio em grau extremo. O que requer mais investimento em insumos e na capacitação dos profissionais de saúde, seja para profilaxia ou nas ações de reabilitação. Todas as ações vinculadas ao projeto, implantação dos núcleos de prevenção a violência, capacitação dos profissionais na rede, classificação de risco, monitoramento do cuidado e construção dos indicadores de saúde sobre o agravo da violência, favorecem o atendimento integral e equânime. A inovação está em estabelecer uma metodologia, que demonstra o modelo sistematizado de como atingir as metas propostas e possibilita replicar estes cuidados em todas as unidades de saúde independente de suas peculiaridades. Torna mais assertivo o trabalho, contribui para a gestão da clínica e qualifica o manejo clínico dos casos de violência, que no geral eram negligenciados.
Objetivos
Objetivo Geral: Desenvolver uma metodologia de trabalho para dar condições ao manejo clínico e a gestão da clínica dos casos de violência doméstica. Objetivos específicos: Criar e instituir um formulário de classificação de vulnerabilidade e risco, a partir das fichas de notificação de violência interpessoal/autoprovocada na atenção primaria. Implantar núcleos de prevenção a violência (NPV) para acompanhamento dos casos. Monitorar o cuidado realizado para as pessoas em situação de violência na atenção básica e seus desdobramentos. Instaurar processo de educação continuada para trabalhadores de saúde e parceiros intersetoriais sobre as demandas em torno dos casos de violência (identificação, interseccionalidades, consequências da violência, metodologia de trabalho, preenchimento da ficha de notificação, trabalho em rede). Analisar os dados produzidos e organizar/nortear as prioridades de atendimento e atividades de promoção de saúde a partir da gestão da clínica na prevenção a violência
Metodologia
A Avaliação com Classificação de Risco determina a agilidade no atendimento e proporciona atenção centrada no nível de complexidade e não na ordem de chegada, o que sugere um atendimento mais equânime, integral e assertivo. Nesta lógica desenvolvemos um instrumento de avaliação de classificação de vulnerabilidade e risco para os casos de violência doméstica, com base na ficha de notificação de violência interpessoal/autoprovocada, com o objetivo de nortear a prioridade dos atendimentos e monitorar o cuidado em rede na atenção básica. Construímos um questionário com 13 perguntas que consideram as interseccionalidades, já que denotam marcadores sociais que irão incidir em maior ou menor grau de vulnerabilidade e risco. Esta é uma estratégia estruturada de evolução de risco, porém seus resultados não devem ser fixados somente no algoritmo. Cabe ao profissional analisar o caso como um todo atrelado a resposta do questionário para aferir o risco existente. A soma das respostas positivas indica uma classificação organizada por cores, sendo 0 a 3 pontos considerado grau moderado (verde), 4 a 7 grau grave (amarela) e 8 a 13 pontos grau extremo (lilás). Casos de violência autoprovocada ou sexual com menores de 18 anos a classificação se dá automática como grau extremo. Esta classificação junto com as fichas é apresentada a unidade, que recebe uma formação em 5 encontros, para sua equipe, sendo implantado o núcleo de prevenção a violência que acompanharão esses casos em seu território.
Resultados
Com a planilha de classificação de risco, os casos mais urgentes foram visualizados de maneira prática e rápida, por considerar a unidade mais próxima a residência da vítima, possibilita um atendimento equânime e integral em tempo oportuno, desta forma, evitou-se maior tempo exposição das vítimas ao dano e a agudização dos casos. Houve aumento significativo em mais de 2000% em relação preenchimento das fichas de notificação em cada uma das unidades trabalhadas como projeto piloto. Em comparação a 2019 (anterior ao início deste trabalho), com o período de agosto de 2020 (início do trabalho), temos uma proporção de aumento de 500% e em a agosto de 2021 já chegamos a marca de 1700%. Este aumento do número de registro das fichas de notificação encaminhadas para a Rede Atenção Pessoa em Situação de Violência Doméstica e Sexual se deu após a implantação da metodologia aplicada. Em relação aos trabalhadores, houve a participação no ciclo de formação de aproximadamente 150 pessoas. Desde que começou o projeto durante a pandemia, em agosto de 2020, o monitoramento do cuidado registrou 1238 casos, implantou 16 núcleos de prevenção a violência entre as unidades de saúde da família e unidades básicas de saúde e neste momento a atenção primaria está em contato em torno de 400 vítimas para as quais foram ofertados serviços de saúde e permanecem em acompanhamento, sendo seus casos discutidos em reunião de equipe nos núcleos de prevenção à violência.
Conclusões
O resultado nos mostra que é um projeto que tem baixo custo, pode ser replicado em 100% das suas ações em todas as unidades/municípios e ao implantar uma metodologia de trabalho para o manejo clínico dos casos de violência doméstica e a gestão da clínica nos territórios de saúde, com classificação de risco, permite monitorar o cuidado em rede, diminuir o tempo de espera para ter um atendimento equânime e integral. Outra conclusão importante é que apesar da temática da violência não estar na abrangência das cinco redes propostas pela RAS, estrategicamente sua constituição como rede, propõe o fortalecimento de políticas publicas no acolhimento dos casos de violência, já que as especificidades e transversalidades que permeiam o tema clamam por uma dinâmica em rede, implantar os NPVs permitiu acompanhar e analisar os dados além de desenvolver uma metodologia de trabalho que deu condições para as equipes em pensar em ações de prevenção da violência, cuidado dos casos e de promoção de hábitos de vida saudáveis. Este método pode prevenir reincidências entre crianças e adolescentes, mulheres e idosos em situação de violência, além de, a longo prazo, diminuir a agudização dos casos, evitando feminicídios.
Palavras-chave
Violência, classificação de risco e Monitoramento