Inhuma - PI
Reportagem especial: prática de Jiu Jitsu torna jovens campeões em saúde mental no município de Inhuma-PI
16/02/2024 14h05

Inhuma é um município do Piauí, de aproximadamente 15 mil habitantes, que possui 100% de cobertura da Estratégia Saúde da Família (ESF). Em 2021, um diagnóstico situacional da realidade de crianças e adolescentes, realizado pela Secretaria Municipal de Saúde, constatou um número elevado de problemas como transtorno de ansiedade, uso abusivo de tecnologias, baixa socialização, queda no rendimento escolar, distúrbios do comportamento e do sono.
A estratégia para incidir sobre os determinantes sociais, que impactam no processo saúde e doença, passava pela necessidade de aumentar o vínculo com as equipes de saúde da família, criar alternativas recreativas que possibilitem a prática de esportes e incentivar hábitos de vida saudáveis. Foi assim que surgiu o projeto "Saúde Veste Kimono", com o objetivo de desenvolver atividades esportivas e sociais para crianças e adolescentes. O ponto central é a prática do Jiu Jitsu, considerado um esporte de combate e uma arte marcial originária no Japão.
A ideia partiu da experiência do enfermeiro Matheus Solares Santos, que pratica o esporte há muitos anos e entende a sua importância para a compreensão sobre direitos sociais, para o desenvolvimento da disciplina no contexto familiar e escolar e para a promoção da cultura de paz - considerando os altos índices de violência entre jovens das periferias. "Há muitos anos venho pensando em um meio de atrelar o Jiu Jitsu à saúde. Apresentei o projeto, onde vinculava o esporte à promoção da saúde, que foi tomando corpo até se desenvolver em 2023. O município já tinha uma história com o esporte porque alguns atletas ensinavam de forma amadora", conta Matheus.
A exemplo de muitos programas sociais do governo, o projeto vincula a participação dos jovens de baixa renda ao acompanhamento integral, a cada semestre, por equipe multidisciplinar na rede assistencial do município. Mediante avaliação prévia, foram selecionados os jovens que não tinham propensão à violência e, portanto, estavam mais aptos a desenvolver atividades físicas de contato. A iniciativa envolve a participação de profissionais da ESF e do Núcleo de Apoio à Saúde da Família (Nasf-AB).

"É um projeto de formação cidadã, com reuniões envolvendo as famílias, a presença de profissionais que acompanham o desempenho nas escolas e a vinculação da criança e do adolescente ao sistema de saúde - com visita do agente comunitário de saúde, vacinação e consulta médica e odontológica em dia. Não é uma escolinha de formação de lutadores, mas estamos atrelados a um projeto de vida saudável", acrescenta Matheus.
Para viabilizar a participação de 35 jovens, o município investiu, com recursos próprios, na compra de 50 placas de tatames e de 35 kimonos, na reforma de um polo da academia da saúde que estava desativado e na contratação de professor/monitor. As aulas são ministradas de segunda à sexta-feira, a partir das 18 horas, na academia da saúde do bairro Liberdade, situada na periferia do município e com altos índices de violência e drogadição. Depois do treino, há sempre uma roda de conversa para debater temas relevantes para os adolescentes.
Passados três meses do projeto, uma pesquisa com os pais ou responsáveis, que se repete a cada dois meses, apresentou índices animadores: 96% melhoraram no convívio familiar e rendimento escolar, 92% apresentaram melhora na qualidade do sono, 76% reduziram o uso de aparelhos eletrônicos, 100% se socializaram com os colegas de treino e 96% dos pais perceberam melhora na autoestima dos jovens.
Campeões
Se o objetivo central do projeto era fortalecer o vínculo dos jovens com a Atenção Primária, promovendo a saúde mental, os resultados ultrapassaram os limites esperados. A experiência contribuiu não apenas para fortalecer os jovens psiquicamente como também para criar uma geração de campeões, refletindo o alto grau de engajamento dos participantes. Foram mais de 45 medalhas conquistadas.
Uma das campeãs é Hayalla Maria Pereira da Silva, de 15 anos. Dentre alguns prêmios, ela tirou o primeiro lugar em uma competição internacional de Jiu Jitsu, realizada em Fortaleza em janeiro de 2023. Nas redes sociais, Hayalla agradeceu a Deus, à família e ao poder público pela oportunidade. "Se hoje estou competindo é graças ao projeto Saúde Veste Kimono. Deixo o meu muito obrigado à prefeitura, que pôs o projeto em prática e vem a cada dia revelando atletas". Jovens como Gustavo, Paulo Henrique, Layla, Helias, Reinaldo e Alcides também subiram ao pódio de campeonatos regionais e estaduais e a iniciativa tem servido de modelo para outras cidades, como Valença.
"A gente acaba descobrindo tanto potencial, é tão forte o vínculo, tão bonito ver eles adotarem o Jiu Jitsu como filosofia de vida. Nós, sanitaristas, precisamos desconstruir os modos de fazer saúde e voltar ao passado. A gente consegue fazer práticas de saúde pública com planejamento adequado, avaliação, sem precisar de tantas tecnologias. Precisamos fazer saúde com movimento corporal e acreditar no potencial da Atenção Primária", finaliza Matheus.
