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Pirambu - SE

Reportagem especial: projeto Mãos que Criam oferece cuidado multiprofissional para artesãos em Pirambu-SE


13/06/2024 17h11

Em uma comunidade remanescente de Quilombo, situada no pequeno município de Pirambu, em Sergipe, a principal fonte de renda é o artesanato feito com palha de Ouricuri, uma palmeira nativa do Brasil. Cerca de 129 famílias vivem da produção de tapetes, bolsas e chapéus, em uma atividade artesanal cujo esforço repetitivo tem gerado problemas de saúde, como dores na coluna e lesões articulares. 

A incidência de sintomas comuns em grande parte da comunidade chamou a atenção da fisioterapeuta do Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF), Pricila Nascimento da Silva Melo, o que deu origem a um projeto que mudou a qualidade de vida dos moradores. Pirambu é um município de 9 mil habitantes, dividido em 8 povoados. O mais distante é o povoado Alagamar, que fica a 35 km da sede, justamente onde detectou-se o surgimento de dores relacionadas ao ambiente funcional.

Como o projeto foi iniciado em abril de 2021, em plena pandemia, não foi possível realizar um trabalho em grupo. A experiência foi então iniciada com levantamento de informações para subsidiar a atuação dos profissionais - como a aplicação de questionário para aferir peso, altura e informações sobre a dor - e o acompanhamento individualizado e domiciliar. Passado o período de maior risco de transmissão da Covid-19, as atividades foram se ampliando a partir do coletivo.

"Percebemos uma grande incidência de dor osteomuscular no pescoço, coluna e punhos e, junto com a assistente social, que ajudou na coleta dos dados, chegamos à conclusão de que todos eram artesãos. Quando liberou o isolamento, começamos a formar os grupos pequenos para que pudéssemos atrair mais pessoas", explica a fisioterapeuta.

Na sede do município atuam duas equipes da Estratégia Saúde da Família (ESF), composta por médico, enfermeiro e técnico de enfermagem, e cada povoado é acompanhado por uma equipe. Os profissionais que compõem o NASF - nutricionista, educador físico, fonoaudiólogo, assistente social e fisioterapeuta - fazem rodízio para atender todas as localidades. 

A presença das artesãs no grupo de fisioterapia levou à detecção de novas necessidades de cuidado, ampliando a atuação dos profissionais do NASF no povoado. Pessoas com sobrepeso, hipertensão e diabetes passaram a ser acompanhadas pela nutricionista e o trabalho da fisioterapeuta se somou à atuação do educador físico, possibilitando a formação de dois grupos, com uma média de 20 participantes cada, que se reúnem semanalmente. "O educador vai na segunda e eu vou na sexta. Trabalho alongamento, postura correta e relaxamento. O educador físico prioriza a perda de peso e a diminuição do sedentarismo", conta Pricila. 

A remuneração do trabalho artesanal em Alagamar obedece a um regime de produção - quanto mais se produz, mais se recebe. Isto leva a extensivas horas de trabalho, sobrecarga e o aumento de quadros de ansiedade. 

O artesanato, confeccionado por 52 mulheres e dois homens, é comercializado no mercado de Aracaju e, em algumas circunstâncias, exportado para estados como São Paulo e até para fora do país. 

Estão em acompanhamento no projeto 48 artesãos. Para ajudá-los a lidar com os sintomas de ansiedade, uma psicóloga do município passou a visitar o grupo mensalmente.

Mudança cotidiana

A artesã Maria Ozete dos Santos, de 62 anos, vinha apresentando dores permanentes na coluna, nos ombros e nos joelhos quando chegou ao projeto. O cuidado da equipe mudou sua qualidade de vida. Hoje, ela não falta aos encontros e segue as orientações à risca. "O trabalho só tinha hora para começar, por isso eu vivia me incomodando com as dores. Depois dessas atividades estou bem melhor. Faço fisioterapia, caminhada e atividade física. Gosto sempre de participar, nunca falto; porque temos uma pessoa que cuida e nos estimula muito". 

A educação em saúde é uma estratégia fundamental na iniciativa. Através de orientações simples observa-se a redução significativa das dores por esforço repetitivo. A fisioterapeuta recomenda, por exemplo, que a cada duas horas de trabalho, haja um intervalo de pelo menos 20 minutos para a realização de alongamento, como também as orientações passam pela atenção a uma postura correta.  

"Eu nem almoçava, ficava o dia todinho sentada. O artesanato tem que ser feito no chão, tronco envergado, não tem coluna que aguente. A Pricila orientou a fazer as pausas para descansar e ensinou alongamentos, a hora certa de almoçar e lanchar. Estou muito feliz porque quando essa coluna me atacava, eu não podia nem levantar", complementa a artesã.

"O projeto surgiu do sentimento de estar no lugar do outro. O médico dizia que elas tinham que parar o trabalho para diminuir as dores. Mas se elas parassem, iam viver de que? Não temos como prover a questão financeira, mas é possível adequar o ambiente para que possam continuar fazendo suas atividades. O grupo virou uma família. Vemos a necessidade que eles têm de participar e o quanto os encontros têm feito bem", atesta Pricila, que há quatro anos contribui com os avanços no Sistema Único de Saúde (SUS).