Recife - PE
Plataforma digital Recife Monitora amplia base de dados na saúde pública
30/04/2025 13h03

A consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS) sempre esteve vinculada ao desafio apresentado às suas instâncias gestoras de assegurar a qualidade da atenção oferecida aos usuários. No âmbito da Atenção Básica (AB), onde deve ocorrer o primeiro contato da população com a saúde pública, a busca por qualidade demanda a reorganização das ações, com base no conhecimento da realidade de cada região, nas necessidades da população e na definição precisa das competências e responsabilidades dos profissionais. Em Recife, capital pernambucana, a criação da plataforma digital Recife Monitora se destaca por dois pontos importantes na qualificação contínua do serviço: a aplicabilidade e a maleabilidade do método.
O projeto Recife Monitora objetiva qualificar serviços de saúde na AB de forma regular e eficiente, promovendo uma cultura de monitoramento e avaliação entre as equipes. Gerida pela Secretaria de Saúde do Recife, por meio da coordenação da Secretaria Executiva de Atenção Básica, a plataforma foi criada pela Gerência de Saúde Digital e a Empresa Municipal de Informática. É neste ambiente virtual que são realizadas as aferições e compilados os dados de desempenho dos profissionais e de retornos dos usuários a cada quadrimestre, conforme a temporalidade que era estabelecida no Programa Previne Brasil.

Sanitarista da prefeitura do Recife, Débora Amaral participou da concepção, implantação e hoje do monitoramento do projeto, por meio da Gerência Geral de Ações Integradas no Território. “O Monitora surgiu a partir do programa Qualifica Atenção Básica. Em 2021, foram realizadas 17 oficinas, totalizando mais de 240 participantes — entre profissionais da Rede, gestores do nível central e distrital e controle social -, a fim de conhecer os principais desafios para a Rede de Atenção Básica do município”, rememora. A partir do resultado das oficinas, identificou-se a necessidade de criar áreas de atuação: “iniciativas para a valorização das boas práticas em saúde; cocriação com a rede de inovações assistenciais e de gestão para melhoria do processo de trabalho das equipes e cuidado com a população; e sistema de qualidade em saúde que facilitasse a gestão por resultados no nível de cada equipe”.
O sistema surgiu como alternativa às limitações de ferramentas tradicionais, como o PCATool e o extinto PMAQ, buscando maior autoaplicabilidade e flexibilidade adaptativa às vivências dos territórios. “O conceito de avaliação e monitoramento têm base na literatura de Avedis Donabedian (médico e pesquisador de origem libanesa) e os atributos norteadores da avaliação são os da Atenção Básica propostos por Barbara Starfield (pediatra e Mestre em Saúde Pública norte-americana)”, elucida Débora. Com a metodologia definida, em março de 2022 a plataforma começou a ser desenvolvida e o piloto foi executado no primeiro quadrimestre de 2023.
A plataforma atribui uma pontuação de 0 a 1.000 a cada equipe de Saúde da Família (eSF) a partir de parâmetros estabelecidos pelos gestores. A avaliação é composta por três eixos, sendo: Eixo 1 – Avaliação da Qualidade pelas Equipes (200 pontos), no qual os próprios profissionais avaliam aspectos como relações de trabalho e estrutura da unidade por meio de survey; Eixo 2 – Satisfação do Usuário (200 pontos), onde pacientes classificam atributos da Atenção Básica, como receptividade e atendimento, pelo WhatsApp e QR Code; e Eixo 3 – Desempenho das Equipes (600 pontos), uma análise dos indicadores de saúde realizada pela gestão. A pontuação final define a certificação das equipes entre Zonas de Excelência (900 a 1.000 pontos), Qualidade (800 a 899 pontos), Aperfeiçoamento (600 a 799 pontos), Crítica (400 a 599 pontos) e Insuficiente (0 a 399 pontos).
A avaliação de satisfação dos usuários é uma ferramenta estratégica para estreitar a relação entre o SUS e os pacientes, avalia Débora. “Além de incentivar a cultura de participação social, fazendo com que eles se sintam parte integrante do processo de melhoria contínua do SUS, a possibilidade de avaliar o atendimento recebido tende a gerar um sentimento de confiança quando o usuário percebe que sua opinião está sendo considerada. Também gera dados essenciais para identificar fragilidades e potencialidades, a fim de adaptar e organizar o serviço para melhor atender o usuário e orientar as tomadas de decisões”, adiciona.
“[...] a possibilidade de avaliar o atendimento recebido tende a gerar um sentimento de confiança quando o usuário percebe que sua opinião está sendo considerada”. Débora Amaral, sanitarista da prefeitura do Recife OLHO
Em 2023, 182 eSF participaram dos ciclos de avaliação e os resultados demonstraram o sucesso da metodologia. A pontuação média aumentou de 649,6 para 688,6 pontos entre os dois quadrimestres avaliados. Já em relação às Zonas de Classificação, o número de equipes na Zona de Qualidade dobrou de 4 para 8, o que representa um aumento de 100%. Identificou-se também uma queda de 55% nas equipes situadas na Zona Crítica, com 163 eSF situando-se atualmente na Zona de Aperfeiçoamento.

Destaque
Em 2023, 182 equipes de Saúde da Família (eSF) participaram dos ciclos de avaliação e apresentaram resultados positivos, com o monitoramento regular e eficiente.

Tomada de decisões baseada em dados
Secretária de saúde do Recife desde 2021, Luciana D'Angelo celebra as contribuições do Recife Monitora na tomada de decisões baseada em dados. “Institucionalmente, o Recife Monitora representa uma estratégia robusta de qualificação da gestão da Atenção Básica, oferecendo à Secretaria de Saúde uma ferramenta estruturada para avaliar e monitorar a qualidade da atenção prestada. Isso fortalece a tomada de decisões baseada em evidências, promove a responsabilização dos gestores e equipes, e possibilita intervenções mais precisas e direcionadas. Além disso, a incorporação de ciclos regulares de monitoramento e a elaboração de planos de ação com apoio de mentorias consolidam uma cultura institucional de melhoria contínua e inovação, alinhada às necessidades da população e aos princípios do SUS”, ressalta.
“O Recife Monitora representa uma estratégia robusta de qualificação da gestão da Atenção Básica, oferecendo à Secretaria de Saúde uma ferramenta estruturada para avaliar e monitorar a qualidade da atenção prestada.” Luciana D'Angelo, secretária de saúde do Recife .

Para a doutora em Saúde Internacional, a iniciativa qualifica a relação entre o SUS e os usuários ao incorporar a escuta ativa da população como um dos pilares do monitoramento da Atenção Básica. “A Avaliação de Satisfação dos Usuários (ASU), presente na plataforma, permite que o cidadão avalie sua experiência nos serviços de saúde de forma direta e contínua. Esse processo estimula a participação social, gera sentimento de pertencimento e confiança. A ASU também contribui para práticas mais humanizadas e centradas nas necessidades reais dos usuários. Com isso, o Recife Monitora fortalece a responsividade do sistema e orienta decisões que tornam a rede mais sensível, resolutiva e atenta aos pacientes”, finaliza Luciana.