Brasilia - DF
Brasília cria Hortos Agroflorestais Medicinais Biodinâmicos e fortalece farmácias vivas
16/10/2025 15h22
Por Giovana de Paula

Em 2015, o Distrito Federal enfrentou uma grave crise hídrica. Concomitantemente, houve o aumento de casos de arboviroses, especialmente em áreas onde a incidência não costumava ser tão alta. O problema se agravou nos anos seguintes com surtos de dengue em 2017 e 2018, o que levou à criação de um projeto de intervenção na comunidade, aliando Promoção da Saúde, Vigilância e cuidado com o ambiente.
A experiência dos Hortos Agroflorestais Medicinais Biodinâmicos (HAMB), iniciada em 2018 pela Secretaria de Saúde (SES) do Distrito Federal (DF), utiliza princípios da agroecologia, agrofloresta e agricultura biodinâmica para cultivar plantas medicinais, promovendo autonomia no cuidado, educação em saúde e vínculos comunitários.
Segundo o idealizador e um dos coordenadores do trabalho, o médico de família e comunidade Marcos Antonio Trajano Ferreira, o projeto foi concebido para promover um diálogo entre cultivo de plantas medicinais, segurança alimentar e nutricional (SAN), crise climática, saúde mental e assistência farmacêutica. Tudo isso em um contexto onde, embora o cultivo de plantas medicinais no DF tenha uma tradição que remonta há mais de 40 anos, as farmácias vivas vinham anunciando dificuldades na produção das mesmas.

Era, portanto, um desafio, considerando que a produção de plantas medicinais segue um controle rigoroso da assistência farmacêutica. “No SUS há inúmeras experiências de cultivo de hortas orgânicas, mas poucas se assemelham a essa no que se refere ao objetivo medicinal e ao poder de escala. Naquela conjuntura, era necessário fortalecer o vínculo com as pessoas e debater esses temas", afirma o coordenador.
Para Isabele Aguiar, farmacêutica e chefe da Farmácia Viva da UBS - CERPIS / SES-DF, “o HAMB contribui significativamente para as Farmácias Vivas ao garantir o fornecimento sustentável de matéria-prima vegetal, cultivando uma diversidade de plantas medicinais, aromáticas e Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs). Essas plantas são utilizadas tanto em atividades de educação em saúde quanto na produção de preparações caseiras e fitoterápicos, fortalecendo a autonomia da produção local. O modelo agroflorestal biodinâmico adotado pelo HAMB promove a sustentabilidade e o fortalecimento da cadeia produtiva das plantas medicinais dentro do território, garantindo um abastecimento contínuo e de qualidade para os usuários do SUS.”

Marcos Trajano explica como o trabalho foi estruturado. “Aliamos três eixos - agricultura biodinâmica e antroposofia de um lado, sistemas agroflorestais sucessionais agroecológicos de outro, e a saúde coletiva. Falar dessas questões dentro da saúde é um desafio e por isso fundamentamos a intervenção no território a partir de quinze políticas públicas, das quais destaco as seguintes: Política e Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos, Política Nacional de Atenção Básica, Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS, Política Nacional de Agricultura Urbana e Periurbana (mais recente que o projeto), Política Nacional de Agroecologia e Produtos Orgânicos e especialmente a Portaria 137 da Secretaria da Saúde do DF, de 15 de abril de 2025, que cria a Rede de Hortos Agroflorestais Medicinais (RHAMB)."
O projeto - embasado também nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 da ONU - possui atualmente 34 HAMB, sendo três em apoio a iniciativas da sociedade civil, cinco fora do âmbito da Secretaria de Saúde, como na sede da Fiocruz e do Ministério da Saúde, e os demais envolvendo unidades da Atenção Primária e Atenção Especializada. O impacto ambiental do trabalho é considerável, com mais de 14 mil metros quadrados de área recuperada, preferencialmente em regiões de maior vulnerabilidade social.
São cultivadas mais de 120 espécies e adaptadas aos hortos, contribuindo ainda, segundo o autor, para o enfrentamento de dois fenômenos: a erosão genética, que é a perda de espécies, e a erosão da cultura alimentar, que é a redução da diversidade de alimentos disponíveis para as pessoas. Como a maioria dos hortos situam-se em áreas periféricas, a iniciativa se amplia para uma intervenção intersetorial, ao promover justiça ambiental e se contrapor ao apartheid alimentar e ao racismo ambiental. Em 2024, estima-se que cerca de 14 mil pessoas frequentaram os hortos florestais, que estão distribuídos em todas as sete regiões de saúde do DF e em 19 das 35 regiões administrativas.
Participação da comunidade e engajamento profissional

Os resultados da experiência são fortalecidos pela parceria com a Escola de Governo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em Brasília, que promove um projeto de Educação Permanente para servidores públicos, fomentando a expansão da RHAMB a partir de recursos da SES/DF. A parceria conta com um convênio chamado Colaboratório de Práticas Integrativas em Saúde (Colab-PIS), que busca ainda envolver outros grupos de pesquisadores como o Laboratório de Práticas Alternativas, Complementares e Integrativas (LAPACIS) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Estudos para avaliar a tecnologia social proposta pela RHAMB e indícios de seus impactos já estão em processo de desenho. De acordo com o coordenador, a unidade pioneira sempre teve criadouros do Aedes aegypti, que não são mais identificados desde 2023. “Embora não seja um estudo, a gente vem observando que o projeto, por fortalecer a biodiversidade, fortalece a proteção da população.”
No DF, o desenvolvimento dos hortos agroflorestais medicinais biodinâmicos depende diretamente do engajamento das equipes de saúde e da comunidade. O ciclo de implantação dos equipamentos acontece no período da seca, com seu desenvolvimento ao longo do tempo a partir das chuvas. No que se refere aos profissionais, a Fiocruz tem contribuído todos os anos com a oferta dos aperfeiçoamentos em RHAMB, como estratégia de educação permanente. Já foram formados 120 servidores públicos, que atuam como responsáveis por ativar essa rede. Atualmente, o aperfeiçoamento está na 3º edição com 65 servidores matriculados.
“O HAMB atua como um espaço de formação técnica e educação permanente para profissionais da saúde, estudantes e pesquisadores, qualificando o processo de produção e o uso racional das plantas medicinais. Essa capacitação contribui diretamente para a educação continuada de farmacêuticos e demais profissionais do SUS, promovendo o uso seguro, eficaz e integrado das plantas medicinais na assistência farmacêutica. Além disso, o projeto estimula o engajamento da equipe da unidade básica de saúde e a população na manutenção e utilização do HAMB, fortalecendo o vínculo institucional e comunitário e o compromisso com práticas sustentáveis e integradas no cuidado em saúde”, salienta a farmacêutica Isabele.
A experiência, tão significativa, foi premiada na 20ª Mostra Brasil, aqui tem SUS, na categoria geral.

Fotos de Jhonatan Cantarelle /Agência Saúde DF: fotos 1 a 5
Fotos: Sandro Araújo/Agência Saúde DF: foto 6