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Chapadão do Céu cria grupo psicoterapêutico para adolescentes


16/10/2025 15h40

Por Giovana de Paula

Chapadão do Céu é um município de cerca de 13.800 habitantes cuja principal atividade econômica é a agropecuária e a agroindústria. Considerada uma das cidades mais frias do estado de Goiás, abriga parte do Parque Nacional das Emas. Em 2024, a Secretaria Municipal de Saúde iniciou o projeto “Jovens em Ação”, para responder ao aumento da procura por atendimento psicológico de adolescentes entre 14 e 19 anos, que apresentavam quadros de ansiedade, depressão, episódios de lesão autoprovocada, pensamentos e tentativas de autoextermínio e transtornos alimentares.

Naquele ano, foram contabilizados 300 atendimentos de jovens nessa faixa etária nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e havia uma fila de espera por consulta individual que crescia exponencialmente. O projeto “Jovens em Ação” se constitui no primeiro grupo psicoterapêutico formado para acolhê-los, aberto a todos os adolescentes do município, que podem buscar o serviço espontaneamente, sem a necessidade de indicação de profissionais da rede de saúde. Sua criação tornou-se ainda mais relevante diante da ausência de um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) em Chapadão do Céu. 

Embora a demanda venha se intensificando, a necessidade de um olhar mais atento não é nova, como relata a idealizadora do projeto e psicóloga de uma das três UBS do município. “Fui uma adolescente que morou em Chapadão do Céu e sentia falta de atividades para nós, jovens. Depois de formada, quando retornei, vi que ainda era uma necessidade. Como recebemos muitos adolescentes deprimidos, com ansiedade, pensei em algo para eles, mais dinâmico, que os fizesse se sentir pertencentes", relata a psicóloga Eduarda Isalena Pires Vicente.

O passo seguinte foi montar um cronograma com atividades dinâmicas e atrativas para divulgar nas escolas, a partir das necessidades apresentadas pelos jovens. Uma das forças do projeto é, por meio de rodas de conversa, dar voz ativa aos adolescentes, que relatam suas necessidades e muitas vezes pautam as discussões. “Eles falam muito do que estão sentindo, e nós usamos conteúdo de slide em apoio, criando dinâmicas de grupo como as que oferecem estratégias para lidar com as questões sociais", complementa a psicóloga. O trabalho é amparado voluntariamente por outros profissionais da rede - como médicos de família, psiquiatras, nutricionistas e educadores físicos - em encontros que acontecem a cada 15 dias na Secretaria de Saúde. 


Fortalecendo vínculos

Além de atividades físicas e passeios em grupo, uma parceria com a Secretaria de Cultura tem possibilitado a realização de oficinas de dança, enfatizando a importância da relação com o corpo nessa faixa etária. As aulas de dança se intercalam aos encontros do grupo, ampliando uma dimensão fundamental a ser desenvolvida, que é o fortalecimento de vínculos. “Gosto muito desse grupo porque me sinto incluída nas rodas de conversa e gosto da interação que tenho com as pessoas. Há colegas da escola que frequentam o grupo também. É um ambiente legal para a gente interagir com as pessoas", relata Fernanda Flores Dionísio, de 17 anos.

Em 2024, os jovens estiveram reunidos em 19 encontros, onde puderam debater temas como autoestima, autocuidado, procrastinação, educação sexual, transtornos alimentares, Cyberbullying, prevenção ao suicídio, dentre outros. Cada roda de conversa reúne cerca de 35 jovens e, quando necessário, alguns são encaminhados para acompanhamento individual com as psicólogas da rede de saúde municipal. “Entrei no grupo muito ansioso, pois não sabia se podia falar alguma coisa ou se algo que eu fizesse iria incomodar os outros. Mas eu descobri que não, todo mundo é super gentil e ninguém liga para a pessoa estranha que eu sou lá. Posso me sentir completamente acolhido porque lá não existe julgamento,” afirma Gustavo Henrique Karas, de 17 anos.

A psicóloga Eduarda costuma introduzir os encontros com a seguinte pergunta: “Aplicaram na prática o que foi conversado no grupo?”, demonstrando o claro desejo de tornar os meninos e meninas mais aptos a lidar com relações familiares complexas, ansiedade e construir agendas positivas. “Com os grupos psicoterapêuticos, a gente consegue alcançar um número maior de pessoas em menor tempo. Os debates são bastante resolutivos nas rodas de conversa, onde há o pertencimento, a identificação de um caso com o outro. Em algumas situações, é mais eficiente que o atendimento individual, como com pessoas deprimidas e mais isoladas,” reforça a psicóloga. 

A maioria dos alunos (90%)  vêm de escolas públicas. Para ampliar a participação, em 2025 foi desenvolvida uma ação de saúde mental nas escolas do município, abordando temas como  ansiedade, além de divulgar e reforçar o convite para o Grupo Jovens em Ação. A iniciativa alcançou 256 alunos da escola estadual e 60 alunos da escola particular e se refletiu no aumento de 50% no número de participantes. 

O acesso é livre - há um número grande que acompanha todos os encontros, iniciados em junho de 2024, enquanto outros vão atraídos por algum tema em debate. A  preocupação manifesta com o futuro, por exemplo, gerou rodas de conversa com profissionais de diferentes áreas, que ajudaram a entender as profissões. “O grupo auxiliou o meu desenvolvimento em sociedade,  a expor mais o que sinto e a tratar de determinadas situações. Gostei bastante e recomendo muito", conclui Cássia Santos Silva, também com 17 anos.