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Bom Jardim - PE

Vacinar para não adoecer: Bom Jardim cria estratégias de imunização e amplia indicadores de cobertura vacinal


30/01/2026 18h55

Por Giovana de Paula

Vacinar a população é um dos mecanismos mais efetivos de promover saúde. Mas nos últimos anos, o Brasil, país que se tornou referência mundial pelo seu Programa Nacional de Imunizações (PNI), viu a cobertura vacinal cair gradativamente. A causa é multifatorial, mas foi impulsionada pela pandemia de Covid-19, que colocou os municípios diante do desafio de desenhar alternativas que levassem a população de volta às salas de vacinação.    

Em Bom Jardim (PE), um projeto denominado “PNI em Ação” desenvolveu três estratégias centrais para lidar com a queda nos indicadores de vacinação - mapeamento da cobertura infantil, vacinação nas escolas e vacinação domiciliar. “A cobertura vacinal no nosso município estava em declínio por conta da Covid-19, das fake news e do movimento antivacina. A gente precisava revê-la a partir de um levantamento e da mudança de estratégia para alcançar nosso principal objetivo, que era proteger a população e aumentar, consequentemente, a cobertura vacinal,” afirma a enfermeira e coordenadora do Programa Nacional de Imunizações (PNI) no município, Maria do Carmo Salviano.

Os agentes comunitários de saúde saíram em campo para recolher todos os cartões de vacinação das crianças de até 5 anos. Os documentos foram copiados e devolvidos rapidamente às famílias. De acordo com a necessidade de atualização, os responsáveis pelas crianças foram procurados para receber orientações sobre a importância das vacinas e o processo também contribuiu para atualizar o sistema de informação do município. Embora a estratégia tenha perdurado por um bom tempo, não foi suficiente para atingir a cobertura vacinal estabelecida pelo PNI.  

Então, mais uma iniciativa foi desenvolvida de forma concomitante, mobilizando outras equipes para iniciarem a vacinação em ambiente escolar. A regularidade do trabalho foi assegurada por um decreto municipal, que estabeleceu que as equipes fossem às escolas do município pelo menos uma vez por mês para manter a cobertura adequada. Embora o foco fosse as instituições municipais, a repercussão positiva levou à adesão das escolas estaduais e particulares ao projeto. 

Maria Barbosa da Silva, mãe de três crianças - uma menina de 10 meses e dois meninos de 5 e 8 anos -, recebeu da escola uma solicitação para que mandasse a caderneta dos filhos, autorizando a atualização do esquema vacinal. As crianças estudam na Escola Terezinha Barbosa, local onde o filho mais velho recebeu a vacina de HPV e o mais novo a de Varicela. Ela trabalha o dia inteiro no comércio e tem dificuldade de liberação para sair do emprego com o intuito de levar as crianças à unidade de saúde. 

“Eu sempre levava no posto para vacinar, mas é mais difícil porque tinha que tirar as crianças da escola, levar, pegar fila e voltar. A gente corre tanto que se a escola não tivesse feito esse comunicado, eu nem teria percebido que faltava vacina," reconhece. Preocupada com a proteção dos filhos, Maria agradece o esforço das equipes. “Para mim foi maravilhoso porque eu não estava antenada sobre essas vacinas. Foi muito mais prático e garantiu a proteção dos meninos.” 

Mudança nos indicadores

O esforço de integrar saúde e educação representou um avanço considerável. “Foi nesse momento que a cobertura dobrou de valor, pois paramos de esperar a vinda das crianças às unidades de saúde e fomos ao encontro delas. Temos uma rede de escolas municipais, estaduais e particulares considerável, com mais de 30 unidades, onde passamos a realizar a vacinação. E o trabalho foi mantido de forma paralela, de modo que uma estratégia não interferisse na outra”, conta a coordenadora. 

Desenvolvido ao longo de 2022 e 2023, o projeto avançava, mas ainda demandava outros mecanismos para chegar ao patamar de 95% de cobertura infantil, preconizado pelo Ministério da Saúde. Iniciou-se então uma terceira fase, que se constituiu na adoção de estratégias de vacinação domiciliar. “Continuamos com o entendimento de que não dava para esperar nas unidades de saúde. Depois que os ACSs passaram a identificar os cartões de vacinação e a convidar as famílias para levarem as crianças à unidade, veio a vacinação escolar. Mas o caminho precisou ser reprogramado e começamos a vacinação in loco. Assim, atingimos 100% de cobertura em 2024", detalha Maria do Carmo.

Uma vantagem da vacinação domiciliar foi contemplar não só as crianças, mas também os adultos. Uma vez chegando na residência, as equipes vacinaram idosos, acamados, domiciliados e qualquer adulto que desejasse receber os imunizantes, o que levou também a uma cobertura de 100% de todos os idosos em 2025. 

Embora o projeto seja considerado na sua integralidade, a estratégia é avaliada individualmente nas unidades a cada 15 dias e, dependendo do resultado, gera novos planejamentos. Não à toa, o sucesso da vacinação de crianças e idosos é resultado de um movimento permanente. A experiência foi reconhecida na 20ª Mostra Brasil, aqui tem SUS com uma premiação na categoria geral. Para Maria do Carmo, a única vacina cuja meta ainda não foi atingida foi a da varicela, mas não por falta de esforço do município, mas por dificuldades na distribuição em âmbito nacional. Em Bom Jardim, a população pode ficar tranquila, porque cada dose que chega tem destino certo.