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Tefé - AM

Tefé cria projeto Saúde Digital para ampliar acesso a comunidades ribeirinhas em períodos de estiagem


23/02/2026 15h12

Por Giovana de Paula

Os anos de 2023 e 2024 foram marcados por uma forte estiagem em Tefé, município amazônico de quase 74 mil habitantes, localizado a 525 quilômetros de Manaus. Das 124 comunidades existentes na região, 83 entraram em estado de isolamento acentuado porque o acesso, exclusivamente por via fluvial, estava comprometido. Em números absolutos, a estiagem afetou 7.100 pessoas, o que corresponde a 51% da população ribeirinha, e 1.850 famílias. 

Dentre as consequências estava o aumento da demanda em saúde, especialmente em comunidades rurais e ribeirinhas. “Nós vivemos, em 2023, uma experiência devastadora com a seca. Então, traçamos um plano estratégico visando garantir a qualidade da água, tornando-a potável em período de escassez, como também dispensando medicamentos com controle e realizando consultas online. Esse planejamento foi organizado sobretudo porque havia a sinalização de que a seca de 2024 seria ainda maior", conta a secretária municipal de saúde, Lecita Marreira de Lima Barros. 

Buscando subsidiar a gestão municipal na tomada de decisões, sobretudo no que se refere ao estabelecimento de áreas prioritárias para o recebimento de profissionais de saúde, insumos e orientações, foram adotadas tecnologias digitais como estratégias de gestão e cuidado em situações de desastre climático. Para tanto, foi criado um formulário digital no Google Forms visando a coleta de dados como sinais e sintomas de doenças, grupos de risco e áreas mais vulneráveis a partir das condições gerais de saúde dos moradores. 

“Na enchente levamos dois dias para chegar a alguns locais, mas na estiagem esse tempo é muito maior. O acesso é totalmente fluvial e no período seco só é possível chegar em barcos de pequeno porte, muitas vezes tendo que arrastá-los na lama. A tecnologia ajuda as equipes a darem suporte à população,” afirma o gestor técnico do sistema e-SUS APS, Valcinei Silva Amorim. 

Para facilitar a alimentação e o compartilhamento das informações, foi construído um banco de dados, que se transformou em um painel digital automatizado em Excel, passando a ser atualizado semanalmente. O sistema, que possibilita o monitoramento dos dados em tempo real, é constituído por tabelas e gráficos dinâmicos, que facilitam a visualização dos resultados. No painel é possível acessar o total de registros, a evolução do número de casos ao longo das semanas, as comunidades mais afetadas, o sexo e a área residencial do usuário. 

“As informações ajudaram os nossos técnicos a se preparar para o isolamento”, afirma a secretária. Em 2024, segundo ela, 88 comunidades ficaram isoladas e o período de estiagem foi maior do que no ano anterior, durando mais de 40 dias. “Apesar disso, não houve mortes por doença de veiculação hídrica, nem internações. Conseguimos sanar o primeiro atendimento sem precisar fazer remoção e algumas comunidades, que ficaram com os poços artesianos vazios, receberam o material para tornar a água potável, em parceria com o Instituto Mamirauá. Isso foi excepcional naquele momento.” 

Foram estabelecidos 21 pontos de apoio ativos nas comunidades, através dos técnicos de enfermagem e agentes comunitários de saúde, que se encarregaram de distribuir os medicamentos, além de 313 kits de tratamento de água e cinco mil cestas básicas para 3.500 famílias ribeirinhas mais necessitadas.

Quem coleta os dados para alimentar o sistema de informação são agentes comunitários de saúde, técnicos de enfermagem e enfermeiros, que aplicam um questionário estruturado. Todos os atendimentos, sejam aqueles realizados presencialmente, por vídeo chamadas ou mensagens telefônicas, são registrados no Prontuário Eletrônico do Cidadão (PEC). O município possui quatro equipes de saúde da família ribeirinha e uma equipe fluvial, constituídas por médicos, enfermeiros, agentes comunitários de saúde (ACS) e técnicos de enfermagem. Todos esses profissionais participaram do projeto.    

Através do PEC foi possível constatar a realização de 11.365 atendimentos em 2024, nos consultórios fixos, itinerantes e remotos, incluindo horários noturnos. Foram contabilizados no painel 1.097 casos de adoecimento, cujos sintomas predominantes foram diarreia, tosse seca e coriza, e quase 50% dos casos envolveram crianças. O sistema também permitiu identificar maior vulnerabilidade nas comunidades de Vila Bastos e São Francisco do Itauba.

 

Conectividade

Quando se pensa na adoção de mecanismos tecnológicos para impulsionar a assistência à saúde no Brasil, um dos pontos centrais é avaliar a conectividade das regiões. Esse aspecto é ainda mais relevante na região amazônica, onde a capacidade tecnológica é menor em relação a outros pontos do país. Em Tefé, algumas comunidades não têm sequer energia elétrica permanente; funcionam com motores de luz através de grupos geradores. Por isso, as comunidades com acesso à internet serviram como pontos estratégicos para o recebimento de atendimento remoto. 

“Temos mais de 100 comunidades, a maioria acompanhada por 73 ACS. O projeto é apoiado em pontos de internet móveis, instalados nas escolas, na casa dos ACS ou do presidente da comunidade. Esse acesso ajuda a fazer o monitoramento dos dados, permitindo que a informação seja passada em tempo real. Um mês antes de começar a estiagem foi feita toda a cobertura vacinal,” acrescenta Valcinei. “Acredito que nosso objetivo foi desenvolvido - monitorar a saúde da população, mapear grupos de risco e fortalecer a tecnologia, implantando um sistema digital acessível. A gente pode desenvolver soluções sem gastar", comemora o gestor do e-SUS APS. 

A experiência - premiada na categoria geral da 20ª Mostra Brasil, aqui tem SUS - emocionou a equipe. “Como gestora e co-autora do projeto, me sinto duplamente reconhecida com a premiação da Mostra. Esse prêmio revela que o Brasil nos enxerga por fazermos um SUS de qualidade, equitativo, e replicável. Não tem preço demonstrar que é possível levar cuidado, apesar das grandes distâncias, salvando vidas. Esse é o nosso objetivo como profissionais de saúde,” comemora a secretária. A alegria também foi compartilhada pelo autor da experiência. “Eu posso dizer que demorou a cair a ficha - na hora foi uma emoção gigantesca ser premiado em um evento dessa natureza. Foi um momento único porque é um prêmio de muita importância e me dá a sensação de dever cumprido pessoal e profissional,” finaliza Valcinei.