09/02/2026
09/02/2026 15h29
Por Estefany Bonifácio sob supervisão de Maria Luíza Diniz - Conasems

No município de Itanhandu, localizado no sul de Minas Gerais a saúde mental passou a ocupar um novo lugar no cuidado local. Após a criação do projeto ”Cuidar em liberdade: a transformação da RAPS de Itanhandu”, foi possível fornecer o apoio e tratamento em saúde mental de forma humanizada depois da reestruturação dos serviços fornecidos no Centro de Atenção Psicossocial do município.
No período pós-pandemia, a realidade encontrada no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) de Itanhandu, fornecia o serviço de atividades, com grande déficit de profissionais e funcionamento restrito, atuando quase exclusivamente como um ambulatório de saúde mental. O foco era o atendimento psiquiátrico e psicológico individual, além de encaminhamentos para internações de longa permanência, especialmente de usuários com um quadro de dependência de álcool e outras drogas e pacientes psiquiátricos com quadro grave de psicose.
Essas internações afastavam os usuários do convívio social e familiar por meses, mantendo-os mais tempo fora do município do que inseridos em um cuidado territorializado. Além do impacto humano, o custo financeiro da rede também crescia. Somente em 2021, Itanhandu chegou a gastar mais de 210 mil reais com internações de longa permanência.
Diante desse cenário, a Secretaria Municipal de Saúde iniciou, em 2022, um processo de reestruturação do CAPS, com o objetivo de romper com a lógica ambulatorial e aproximar o serviço de sua função original: o cuidado dos casos graves e persistentes em saúde mental, de forma comunitária, contínua e humanizada. Para isso, novos profissionais foram contratados e outros efetivados, fortalecendo a rede municipal.

Uma das principais mudanças foi a descentralização do atendimento psicológico para as Unidades Básicas de Saúde. Os casos leves passaram a ser acompanhados na atenção primária, porta de entrada do SUS, permitindo que o CAPS se dedicasse aos usuários que realmente necessitam de acompanhamento intensivo. Além de otimizar o serviço, essa estratégia ampliou o acesso e fortaleceu o caráter preventivo do cuidado em saúde mental no município.
“Antes, apenas a terapia ocupacional em grupo era ofertada, com a nova organização, quatro oficineiros foram contratados e passaram a conduzir atividades como horta e jardinagem, yoga, corpo e movimento, além do apoio de uma monitora cultural para as demais oficinas”, explicou Tiago Caetano Martins, secretário de saúde de Itanhandu.
A terapia ocupacional ganhou protagonismo no cuidado, estimulando autonomia, independência e uma rotina mais saudável para os usuários. Jogos, pintura, bordado, tricô e outras atividades passaram a integrar o dia a dia do serviço.
O tratamento multiprofissional também se tornou um diferencial. Para além da medicação, as oficinas passaram a ser entendidas como parte essencial do cuidado. “A importância de um tratamento adicional é primordial na saúde mental”, disse Ciro Scarpa, psiquiatra que atua dentro do projeto. A instrutora de yoga participante do projeto, comentou que a oficina de yoga, não tem como objetivo formar praticantes, mas apresentar a filosofia e a ciência do yoga como ferramenta de autoconsciência, equilíbrio emocional e cuidado integral.
Para os usuários, a rotina dos grupos faz toda a diferença com horários, compromissos e convivência social, ajuda a reconstruir vínculos e promove pertencimento: “Você sai de casa, conversa com as pessoas, um ajuda o outro. Areja a cabeça, faz muito bem”, conta um participante.
Com uma perspectiva antimanicomial, o CAPS de Itanhandu passou a priorizar o cuidado em liberdade, combatendo a lógica manicomial que ainda persiste de forma velada. Os resultados aparecem no cotidiano com usuários mais autônomos, próximos de suas famílias, retomando atividades, trabalho e participação na vida social.
“Ver essas pessoas conseguindo viver em sociedade, com mais qualidade de vida, é extremamente gratificante, o CAPS deixou de ser apenas um serviço de atendimento e passou a ser um espaço de cuidado, reconstrução de vínculos e transformação social", resume Langs Mello.
A experiência de Itanhandu foi premiada na 20ª Mostra Brasil, Aqui Tem SUS e é tema de um dos episódios da 8ª temporada da série Webdocs Brasil, Aqui Tem SUS, que apresenta iniciativas exitosas do Sistema Único de Saúde em todo o país.
Assista à estreia do Webdoc completo nesta terça-feira (10/02), às 18h no Canal do Conasems no Youtube e na programação da TV Mais Conasems!